Cão observando tutor com curiosidade

O que faz mal e o que faz falta para o bem-estar do seu cão

Seu cachorro é bonitinho e fofinho, e a vontade é de enchê-lo de carinho e abraços. No entanto, a forma como expressamos esse afeto e os cuidados que dispensamos podem, em alguns casos, gerar mais estresse do que bem-estar para o animal. A médica veterinária especializada em manejo de comportamento canino, Ana Luísa Lopes, alerta para os excessos de carinho e banhos inadequados, além da falta de companhia e atividades, que impactam diretamente a qualidade de vida dos cães. Entender a linguagem corporal do seu pet e adaptar os cuidados às suas necessidades individuais é fundamental para garantir sua felicidade e saúde.

“Com frequência, deixamos de perceber sinais sutis por meio dos quais os animais expressam seu desconforto”, explica Lopes. Essa desatenção pode levar a situações indesejadas, onde um afago insistente, mesmo que bem-intencionado, pode evoluir para um rosnado e, em casos extremos, uma mordida. A veterinária enfatiza que é crucial ensinar os tutores a interpretarem a linguagem corporal dos seus cães, dando-lhes a oportunidade de escolherem quando e como querem interagir.

Entendendo a linguagem corporal canina para evitar desconforto

A veterinária Ana Luísa Lopes destaca a importância de observar os sinais que os cães emitem quando estão desconfortáveis. Esses sinais podem ser sutis, como uma lambida no próprio focinho ou nos lábios, um bocejo fora de hora, um sacudir o corpo ou simplesmente desviar o olhar. Gestos como virar o rosto ou afastar-se também indicam o desejo do animal de se distanciar da situação.

“Vamos supor que eu esteja de frente para o animal. Ele vira, desviando o olhar. Ou ele simplesmente sai de perto”, exemplifica Lopes. Ela sugere que os tutores adotem uma abordagem semelhante à que se tem com os gatos: oferecer carinho e permitir que o animal venha até você, em vez de forçar a interação. “Às vezes, o animal vai estar ali, deitado ao seu lado. Você vai fazer o carinho nele e tudo bem, ele vai estar ali por livre e espontânea vontade.” Ignorar esses sinais pode levar a reações mais drásticas, como rosnados e mordidas, gerando conflitos desnecessários.

Banhos: frequência e técnica adequadas para cães

Os banhos, embora essenciais para a higiene, podem ser uma fonte de grande estresse para muitos cães. Lopes desmistifica a ideia de que raças de pelo longo, como Lulu da Pomerânia, Maltês ou Shih Tzu, já nascem adaptadas a banhos frequentes em pet shops. Pelo contrário, é necessário um processo de adaptação individualizado e conduzido por profissionais que entendam de comportamento animal.

O conceito de “banho de baixo estresse” visa criar associações positivas durante o procedimento. Isso pode incluir transformar momentos temidos, como a secagem com secador, em brincadeiras recompensadas com petiscos. “A gente traz essa emoção positiva de uma forma mais aflorada nesse momento e deixa a emoção negativa que antes era a principal, em segundo plano”, explica Lopes.

A veterinária também critica o uso de banheiras ofurô, que, apesar de parecerem esteticamente agradáveis, podem ser claustrofóbicas para os cães. A contenção em um espaço fundo e com muita água, sem nada para fazer, pode levar o animal a um estado de congelamento por desconforto, e não de relaxamento.

Quanto à frequência, Lopes recomenda cautela. Para cães de pelo longo, banhos a cada 15 ou 20 dias podem ser suficientes. Já para os de pelo curto, a recomendação é mais surpreendente: quanto menos banho, melhor, idealmente uma vez por ano. Essa frequência pode aumentar caso o cão tenha um estilo de vida mais exposto a sujeiras, como passeios em trilhas ou fazendas.

Companhia e atividade: combatendo o tédio e a solidão canina

Um dos pontos mais críticos levantados pela veterinária é o tempo excessivo que muitos cães passam sozinhos em casa. No Brasil, é comum que cães fiquem 10 a 12 horas sozinhos enquanto seus tutores trabalham. Em contraste, em países como a Inglaterra, deixar um cão sozinho por mais de quatro horas já é considerado maus-tratos.

Lopes aconselha a contratação de pet sitters ou passeadores para intervir durante o dia. Essa pessoa pode oferecer uma atividade física ou mental, quebrando a longa jornada de solidão do animal. Essa prática é especialmente importante para cães recém-adquiridos ou adotados, que precisam de orientação e companhia para se adaptarem a um novo ambiente.

A falta de companhia e estímulo durante longos períodos de ausência do tutor pode levar a comportamentos destrutivos, como roer móveis ou fazer necessidades em locais inadequados. Esses comportamentos, muitas vezes, resultam em frustração para o tutor e podem levar à devolução do animal, num ciclo vicioso onde o cão é penalizado por necessidades não atendidas.

Brinquedos para destruir: direcionando instintos naturais

Outro aspecto fundamental para o bem-estar canino, segundo Lopes, é a disponibilização de objetos apropriados para que os cães possam satisfazer seus instintos naturais de destruição. Em vez de reprimir esse comportamento, que é inerente à espécie, é mais eficaz direcioná-lo para itens específicos.

“Reclamamos por esse animal destruir a nossa casa, mas isso é um comportamento que é natural da espécie”, afirma Lopes. É preciso, portanto, oferecer ao cão brinquedos adequados para roer ou destruir.

A escolha do brinquedo deve considerar a individualidade do cão. Um cachorro que destrói portas de madeira, por exemplo, pode necessitar de brinquedos mais duros. Se o cão tem o hábito de cavar, é recomendado criar um espaço específico no quintal onde ele possa exercer esse comportamento sem causar transtornos.

Reprimir comportamentos naturais pode gerar problemas secundários. Um cão que tem seus instintos inibidos pode desenvolver latidos excessivos, agitação ou demandas de atenção exageradas, não por ser um animal

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