Se você é tutor de um cão ou gato, é provável que dedique atenção especial à alimentação do seu pet. A escolha da ração ideal, com ingredientes que prometem saúde e bem-estar, parece ser uma tarefa simples ao ler o rótulo. No entanto, uma investigação profunda revela que a realidade por trás das embalagens pode ser bem diferente do que você imagina, levantando questões sérias sobre a transparência da indústria alimentícia para animais de estimação.
Estudos recentes indicam que muitas rações vendidas no mercado brasileiro podem não conter os ingredientes prometidos ou podem mascarar componentes que não são do interesse do consumidor saber. Essa discrepância entre o que é anunciado e o que é, de fato, oferecido, levanta o alerta para práticas de publicidade enganosa e para a qualidade nutricional dos alimentos que chegam à tigela do seu companheiro.
O que uma pesquisa da USP revelou sobre as rações
Uma investigação conduzida pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, divulgada em 2019, trouxe à tona descobertas preocupantes sobre a composição de rações para cães e gatos disponíveis no mercado. A pesquisa analisou um total de 82 amostras de rações para cães, de 25 marcas diferentes, e 52 amostras de rações para gatos, de 28 marcas distintas.
Os resultados foram surpreendentes e, em muitos casos, decepcionantes. A análise das amostras revelou que a promessa de ingredientes “nobres” nas embalagens, como carne fresca, muitas vezes não se concretiza. Em vez disso, os estudos encontraram uma quantidade significativa de ingredientes de origem vegetal, como o milho, e subprodutos de frango, que não eram devidamente destacados ou eram apresentados de forma a confundir o consumidor.
A embalagem mostra uma coisa, induzindo o consumidor a pensar na ‘nobreza’ dos ingredientes, mas, na verdade, quase tudo se reduz a milho e frango.
Essa declaração, feita por um dos coordenadores da pesquisa, Luiz Antônio Martinelli, resume a essência da descoberta: a imagem idealizada na embalagem contrasta com a composição real do produto. Essa prática pode levar os tutores a acreditarem que estão oferecendo uma dieta de alta qualidade, quando, na verdade, estão fornecendo um alimento com ingredientes menos desejáveis e, em alguns casos, inadequados para as necessidades específicas dos pets.
Análise detalhada: rações caninas versus felinas
Ao detalhar os resultados, a pesquisa da USP destacou diferenças importantes na composição das rações para cães e gatos, evidenciando problemas distintos em cada categoria.
Rações para cães: a predominância do milho e frango
Nas rações caninas analisadas, tanto secas quanto úmidas, a pesquisa constatou que, em média, cerca de 60% dos nutrientes eram de origem animal e 40% de origem vegetal. O milho aparecia como um ingrediente em proporção considerável, assim como vísceras de frango. Contudo, nenhuma das embalagens mencionava a presença desses grãos ou subprodutos em larga escala. O que era mais comum era a ilustração de pedaços suculentos de carne, uma representação que não correspondia à realidade da composição, segundo os pesquisadores.
Rações para gatos: um desafio para carnívoros obrigatórios
A situação se mostrava ainda mais preocupante nas rações destinadas aos gatos. Dois terços dos produtos analisados continham uma quantidade maior de ingredientes de origem vegetal do que o ideal. Mesmo nas rações úmidas, que muitas vezes apelam para a “presença de carne” ou “presença de peixe” no rótulo, a análise indicou que apenas cerca de 25% do conteúdo era, de fato, de origem animal.
Essa predominância de ingredientes vegetais, ricos em carboidratos, é particularmente problemática para os gatos. A bióloga Janaina Leite, mestranda do Cena, explicou que os gatos são carnívoros restritos, com uma capacidade limitada para digerir carboidratos. Por isso, a recomendação é que sua dieta seja composta de, no máximo, 10% desse tipo de ingrediente. Uma dieta com excesso de carboidratos pode levar a problemas de saúde no sistema digestivo felino.
O gato é um carnívoro restrito, com menor capacidade para digerir carboidratos. Por isso, alguns autores recomendam que sua dieta seja composta de, no máximo, 10% desse ingrediente.
A questão da falsa publicidade e a regulamentação
Diante dessas descobertas, surge a pergunta: essas práticas da indústria podem ser classificadas como falsa publicidade? Embora a legislação brasileira, através de uma instrução normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), exija a especificação qualitativa dos produtos, ela também afirma que as informações no rótulo não devem induzir o consumidor a “equívoco, erro, confusão, falso entendimento ou engano, mesmo por omissão”.
A ausência de informações claras sobre a presença de ingredientes como milho em larga escala ou subprodutos de frango, especialmente quando a imagem do rótulo sugere carne de alta qualidade, pode configurar uma omissão que induz ao engano. No entanto, a falta de clareza quantitativa e a interpretação do que constitui um “engano” tornam essa questão complexa e, muitas vezes, sujeita a interpretações que beneficiam a indústria.
Como escolher a melhor ração para seu pet?
Com o mercado de alimentos para animais de estimação em constante expansão – o Brasil ostenta o segundo maior mercado do gênero no mundo –, a tarefa de garantir a melhor nutrição para cães e gatos torna-se ainda mais crucial. Apesar das incertezas quanto à veracidade dos rótulos, existem estratégias que os tutores podem adotar para fazer escolhas mais conscientes:
- Leia atentamente os ingredientes: A lista de ingredientes é apresentada em ordem decrescente de quantidade. Os primeiros itens são os que aparecem em maior proporção no produto.
- Questione o desconhecido: Se encontrar nomes de subprodutos que não são claros ou que parecem incomuns, não hesite em contatar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) do fabricante para obter esclarecimentos.
- Prefira rações úmidas para gatos (com ressalvas): Pesquisadores apontam que rações úmidas, como sachês, tendem a ter maior teor de proteína. No entanto, é preciso estar ciente de que geralmente são mais caras e devem ser avaliadas caso a caso.
- Consulte um veterinário: O profissional de saúde animal é o seu maior aliado. Ele pode orientar sobre as necessidades nutricionais específicas do seu pet e indicar marcas ou tipos de ração que realmente atendam a esses requisitos.
- Observe a saúde do seu pet: Mudanças no comportamento alimentar, na pelagem, na energia ou no sistema digestivo do seu animal podem ser sinais de que a ração atual não é a mais adequada.
A transparência que seu pet merece
A indústria de ração para animais de estimação movimenta bilhões e, como em qualquer grande setor, a busca por transparência é um caminho árduo. Os estudos da USP servem como um importante alerta para os consumidores, incentivando uma postura mais crítica e informada na hora de escolher o alimento para seus companheiros de quatro patas. Ficar atento aos rótulos, questionar as empresas e, acima de tudo, confiar na orientação de um veterinário são passos fundamentais para garantir que o seu pet receba a nutrição que realmente merece e precisa para uma vida longa e saudável.








