Cães “veem” o futuro e salvam vidas graças à biologia evolutiva e sentidos aguçados, explica a ciência
O que parece premonição em cachorros é, na verdade, uma combinação de biologia evolutiva e sentidos extremamente apurados, capazes de detectar estímulos físicos imperceptíveis aos humanos. Essa habilidade, frequentemente vista em vídeos de cães agindo segundos antes de desastres ou resgatando tutores, não tem nada de sobrenatural, mas sim de pura ciência.
Conforme aponta o psicólogo Stanley Coren, em declarações à Deutsche Welle (DW), a percepção canina é significativamente superior à humana. Enquanto nos baseamos majoritariamente na visão, os cães utilizam o olfato de forma proeminente, possuindo um poder entre 10 mil e 100 mil vezes maior que o nosso. Além disso, eles escutam frequências sonoras muito mais altas e sentem vibrações mínimas no solo através de sensores nas patas.
Cães detectam doenças antes do diagnóstico humano
Uma das capacidades mais notáveis dos cães é a identificação de mudanças bioquímicas no corpo humano. Estudos científicos comprovam que eles conseguem perceber alterações sutis no suor e na respiração associadas a doenças como diabetes e certos tipos de câncer, muito antes que exames clínicos rotineiros possam identificar.
Pesquisas recentes, como um estudo da Queen’s University Belfast, demonstraram que cães de família, sem treinamento específico, reagiram de forma distinta ao suor de pessoas prestes a ter um ataque epilético. Isso sugere a existência de um marcador olfativo específico para convulsões, validando a sensibilidade canina para a detecção de condições neurológicas.
Antecipação de desastres naturais é explicada pela sensibilidade sensorial
A aptidão canina para antecipar catástrofes naturais também encontra explicação científica. Cães conseguem ouvir o som de rochas se rompendo no subsolo ou sentir a liberação de gases e cargas elétricas antes de terremotos, fenômenos que escapam à percepção humana.
Uma pesquisa robusta liderada por Martin Wikelski, do Instituto Max Planck e publicada na revista científica Ethology, monitorou animais na Itália. O estudo registrou um aumento expressivo na atividade e agitação de cães e animais de fazenda horas antes de tremores sísmicos, indicando uma reação a microvibrações ambientais.
Comparativo de sentidos revela a diferença entre cães e humanos
As diferenças biológicas explicam a aguçada percepção dos animais:
- Olfato: Humanos possuem cerca de 5 milhões de receptores olfativos, enquanto cães chegam a 300 milhões.
- Audição: Cães captam frequências de até 65.000 Hz, incluindo ultrassons, superando a capacidade humana de 20.000 Hz.
- Vibração: Cães detectam tremores e vibrações sutis através das patas, algo que humanos percebem com baixa sensibilidade tátil no solo.
Viés de confirmação e a conexão emocional com os donos
Especialistas apontam que o viés de confirmação, um fator psicológico, influencia a percepção humana sobre as habilidades caninas. Tendemos a lembrar e compartilhar histórias de acertos dos cães, esquecendo as inúmeras vezes em que latiram sem motivo aparente. Essa conexão emocional faz com que a ansiedade do animal, como ofegar ou choramingar, seja interpretada como um aviso místico.
Frequentemente, o cão reage à tensão muscular e ao odor de estresse do próprio dono, atuando como um espelho biológico das emoções humanas. Reconhecer que o “sexto sentido” é resultado de habilidades sensoriais evolutivas não diminui o encanto dos cães, mas sim o realça, fortalecendo a parceria de cuidado e sobrevivência mútua.






