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Descobertas recentes no rio Tietê, em um cão doméstico e em lesões de pele humana alertam para a crescente ameaça de bactérias multirresistentes, antes restritas a hospitais. Entenda o risco para a saúde pública.
A ameaça das bactérias multirresistentes, conhecidas como superbactérias, transcendeu os limites dos hospitais e agora se manifesta em cenários do cotidiano. Recentes estudos apoiados pela FAPESP revelam a detecção desses patógenos de alta periculosidade no rio Tietê, na cidade de São Paulo, em um cão doméstico e em uma infecção de pele humana fatal.
Essa expansão sublinha a urgência de uma abordagem integrada, conhecida como Saúde Única, para combater a resistência antimicrobiana. As descobertas, que incluem variantes antes restritas ao ambiente hospitalar, evidenciam um risco crescente para a saúde pública e demandam novas políticas de educação e diagnósticos mais rápidos e precisos.
As superbactérias representam um perigo especialmente grave para pacientes em unidades de terapia intensiva (UTIs), submetidos a procedimentos invasivos ou em tratamento de câncer. No entanto, sua presença em ambientes não hospitalares demonstra que podem causar infecções severas também em pessoas saudáveis, com destaque para crianças, cujo sistema imunológico ainda está em desenvolvimento.
A situação é um alerta para a complexidade do problema, que exige vigilância constante e ações coordenadas para evitar a disseminação e o desenvolvimento de novas resistências. Segundo o professor Nilton Lincopan, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e coordenador dos trabalhos, esses são casos que demonstram a necessidade de abordar a questão seriamente do ponto de vista da Saúde Única, conforme divulgado pela Agência FAPESP.
No coração da capital paulista, o rio Tietê foi palco de uma preocupante descoberta: a bactéria Acinetobacter baumannii. Este clone, que apresentava genes de resistência a antibacterianos e de virulência, foi encontrado em uma coleta realizada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), como parte do monitoramento do projeto OneBR, iniciativa também apoiada pela FAPESP.
A linhagem é resistente a carbapenêmicos, uma classe de antibióticos categorizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como de prioridade crítica globalmente. A hipótese mais provável para a presença da bactéria no rio é a chegada de efluentes hospitalares. Lincopan ressalta que, além de novos antibióticos, será fundamental desenvolver tratamentos de efluentes mais eficazes para evitar que esses patógenos alcancem a natureza. O estudo foi publicado na revista One Health e teve a participação de pesquisadores como Guilherme Paiva, Thais Martins Gonçalves, Johana Becerra, Rodrigo Cayô e Ana Gales.
A disseminação de superbactérias no ambiente também foi a provável via de contaminação para uma cadela spitz alemão de dois anos. O animal foi infectado com uma linhagem resistente de Klebsiella pneumoniae, conhecida pela sigla ST323, após dar entrada em um hospital veterinário com gastroenterite hemorrágica severa. Apesar do tratamento, a infecção progrediu para pancreatite e peritonite, resultando no óbito.
O caso se tornou ainda mais complexo porque, embora o animal não tivesse sido tratado com carbapenêmicos, a bactéria responsável pela infecção era resistente a essa classe de antibióticos. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores, como Jéssica Taina Bordin e Fábio Sellera da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), é a transmissão de humanos para os animais domésticos, especialmente após longas internações hospitalares. Este trabalho foi divulgado no periódico Veterinary Microbiology.
Em 2023, uma jovem de 18 anos faleceu em decorrência de uma sepse generalizada causada por uma variante de Staphylococcus aureus, bactéria comum na pele humana. A análise genômica revelou que a linhagem, USA300-NAE, era resistente à meticilina, um tipo de resistência responsável por 23.400 mortes nas Américas em 2019, conforme levantamento de 2023.
Para o professor Nilton Lincopan, é crucial que o atendimento médico para infecções comunitárias (adquiridas fora do ambiente hospitalar) seja mais cauteloso, considerando a possibilidade de superbactérias. O diagnóstico laboratorial, que inclui o perfil de sensibilidade das bactérias aos antibióticos, deve preceder a prescrição. O uso indiscriminado desses medicamentos é apontado como uma das principais causas do desenvolvimento de resistência, e o estudo sobre este caso foi publicado em novembro de 2025 na revista The Lancet Microbe, com a colaboração do pesquisador Herrison Fontana.
A realidade das superbactérias exige uma mudança de paradigma. A OMS classifica a resistência antimicrobiana como uma das maiores ameaças à saúde pública e ao desenvolvimento global, estimando que tenha sido diretamente responsável por 1,27 milhão de mortes e contribuído para outros 4,95 milhões de óbitos em 2019.
É fundamental que o uso de antimicrobianos seja feito com extremo critério e que políticas públicas de educação para a população sejam implementadas. Além disso, a disponibilidade de diagnósticos precisos e rápidos é essencial. Lincopan destaca a importância dos laboratórios de apoio molecular e a necessidade de aumentar as parcerias dos hospitais públicos para testagem, tornando os testes mais acessíveis e ágeis. O Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES) e o banco de dados genômico OneBR, ambos apoiados pela FAPESP, são iniciativas cruciais nesse cenário.