Entenda os riscos e como manejar o instinto de caça em cães
Correr atrás de insetos, capturar pequenos animais ou tentar caçar aves pode parecer uma cena comum e até divertida para muitos tutores de cães. No entanto, o que para nós pode ser inofensivo, para o seu pet pode representar uma série de riscos. O instinto de caça, embora natural e intrinsecamente ligado à origem predadora da espécie canina, exige atenção e um manejo cuidadoso por parte dos tutores para evitar problemas.
Quando o comportamento de caça se manifesta em contextos inadequados, ele pode trazer prejuízos significativos tanto para o animal quanto para seus donos. É fundamental compreender que esse instinto, mesmo que genético, precisa ser direcionado e controlado para garantir a segurança e o bem-estar de todos. A boa notícia é que, com as estratégias corretas, é possível gerenciar esse comportamento de forma eficaz.
Por que os cães têm instinto de caça?
Segundo o biólogo e analista do comportamento aplicado ao condicionamento e bem-estar animal Alexandre dos Santos Borges, o instinto de caça é uma característica natural dos cães, diretamente ligada à sua origem predadora. “Apesar de terem sido domesticados, cães são predadores. A caça é um comportamento comum em predadores e está relacionada à sobrevivência e ao sucesso evolutivo”, explica.
Esses comportamentos possuem uma base genética forte e são autorrecompensantes, o que significa que o próprio ato de perseguir e capturar já é gratificante para o cão. “Assim como nós, humanos, somos animais sociais, o cão é um predador e tem necessidade da caça. Estímulos como o movimento de correr ou voar podem desencadear comportamentos como perseguir, morder e capturar”, detalha Alexandre.
Raças com maior predisposição
Algumas raças de cães apresentam uma predisposição maior para o instinto de caça. Geralmente, são aquelas historicamente desenvolvidas para auxiliar humanos nessa atividade. Um exemplo claro são os cães do grupo dos terriers, como o Jack Russell, Fox Terrier e Yorkshire, que foram criados especificamente para perseguir e capturar pequenos roedores em tocas.
Ainda assim, é importante ressaltar que outras raças também podem manifestar esse instinto em maior ou menor intensidade. A domesticação e a seleção artificial ao longo dos séculos moldaram diversas características nos cães, mas a essência predadora permanece em muitos deles, exigindo um olhar atento dos tutores.
Riscos associados ao instinto de caça descontrolado
O instinto de caça se torna um problema quando ultrapassa os limites do comportamento natural e passa a representar um risco concreto. Os perigos são variados e podem afetar tanto o cão quanto outros animais e pessoas ao redor.
Entre os riscos mais comuns estão os ferimentos, que podem ocorrer durante a perseguição de presas, especialmente em terrenos acidentados ou em áreas de tráfego. Há também a possibilidade de transmissão de parasitas e doenças graves através do contato com animais selvagens ou seus dejetos. Além disso, o cão pode acabar ingerindo substâncias tóxicas acidentalmente durante a perseguição, levando a quadros de intoxicação.
Um dos maiores receios é o desenvolvimento de comportamentos compulsivos. Quando o instinto não é bem gerenciado, o cão pode se tornar obcecado pela caça, o que aumenta significativamente o risco de ataques a outros animais domésticos, como gatos e pássaros, e, em situações extremas, até mesmo a crianças.
Quando o comportamento é considerado inofensivo?
O comportamento de caça só pode ser considerado verdadeiramente inofensivo quando o cão vive em um contexto de manejo adequado. Isso significa que suas necessidades físicas e mentais estão sendo plenamente atendidas. Um animal cujas necessidades de exercício, estímulo mental e socialização são satisfeitas tem menos probabilidade de desenvolver comportamentos problemáticos.
Nessas circunstâncias, impedir o cão de caçar em ambientes de risco não compromete o seu bem-estar. Pelo contrário, garante a segurança dele e de outros seres vivos. O especialista Alexandre dos Santos Borges reforça que, “o comportamento, apesar de biológico, pode indicar uma carência importante na rotina desse cão e deve ser avaliado por profissionais. Um animal com rotina harmônica reduz as chances de desenvolver comportamentos problemáticos”.
Estratégias de manejo recomendadas por especialistas
Ao presenciar tentativas de caça por parte do seu cão, a primeira orientação é não agir por impulso. Intervenções inadequadas podem piorar a situação e gerar novos comportamentos indesejados. Qualquer ação deve considerar o contexto de vida do animal e, idealmente, contar com o acompanhamento de um profissional qualificado.
Segundo Alexandre, o manejo eficaz do instinto de caça é possível através de uma avaliação individualizada. “Comandos como ‘senta’, ‘fica’ e ‘junto’, aliados a atividades lúdicas que envolvem perseguir, buscar bolinha ou brinquedos, morder e passeios estruturados, ajudam a atender às necessidades da espécie e também às individuais do cão”, explica.
Estas atividades funcionam como uma válvula de escape segura para a energia e o instinto do animal. Brinquedos que simulam a perseguição, como bolinhas e frisbees, e jogos de busca são excelentes para canalizar a energia de forma positiva. Passeios bem estruturados, que ofereçam variedade de estímulos e oportunidades para exploração, também são cruciais.
A importância do acompanhamento profissional
O acompanhamento profissional é indicado de forma preventiva, idealmente desde a chegada do animal ao lar. No entanto, o especialista Alexandre dos Santos Borges destaca que nunca é tarde para fazer ajustes, independentemente da idade do cão. Filhotes e cães adultos podem se beneficiar enormemente de um plano de treinamento e manejo personalizado.
“Os animais, no contexto doméstico, são extremamente dependentes. Os comportamentos não são culpa do cão, mas respostas aos estímulos do ambiente. Por isso, é fundamental investir na educação dessa família multiespécie como um todo“, conclui.
Investir em orientação profissional garante que o tutor aprenda a interpretar os sinais do seu cão, a oferecer os estímulos adequados e a intervir de maneira correta quando necessário. Isso fortalece o vínculo entre tutor e pet e promove um ambiente mais harmonioso e seguro para todos.
Conclusão: Manejar, não eliminar o instinto
Em suma, o instinto de caça nos cães é uma característica biológica poderosa que, se não for adequadamente gerenciada, pode levar a situações de risco. A chave não é eliminar esse instinto, mas sim manejá-lo ao longo da vida do animal.
A proposta é oferecer alternativas seguras e enriquecedoras para que o cão possa expressar esse comportamento natural sem colocar em risco a si mesmo, outras pessoas ou o ambiente. Com paciência, dedicação e o apoio de profissionais, é possível garantir que o instinto de caça seja uma fonte de alegria e exercício, e não de preocupação.








